Pesquisa de mercado: tipos, roteiro e como usar dados de busca no lugar de achismo

Publicado em setembro 15, 2026
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mãos mexendo em um tablet para fazer pesquisa de mercado

“Acho que esse produto vai vender”. Essa é uma frase que escutamos muito das empresas sem nenhum dado por trás. A pesquisa de mercado existe justamente para tirar o “acho” da frase, substituindo achismo por evidências sobre o que as pessoas realmente procuram, comparam e estão dispostas a pagar.

A pesquisa de mercado não é só um conceito institucional, distante do dia a dia de quem precisa decidir algo essa semana. Neste artigo, você vai encontrar os tipos de pesquisa que existem, um roteiro prático de etapas, fontes gratuitas confiáveis no Brasil e como usar dados de busca (via Ahrefs e Google Search Console) como uma forma prática e barata de pesquisa quantitativa de demanda.

Resumo

  • A pesquisa de mercado se divide em três tipos principais (exploratória, descritiva e causal) e pode usar dados primários (coletados por você) ou secundários (já existentes);
  • Aqui mostramos um roteiro de 7 etapas que leva do problema de pesquisa até o relatório final, evitando o erro de coletar dados sem saber que decisão eles vão sustentar;
  • IBGE, SEBRAE e Google Trends são fontes gratuitas e confiáveis para pequenas empresas começarem sem orçamento de pesquisa;
  • Dados de busca (volume, tendência e o que as pessoas já procuram) funcionam como pesquisa quantitativa de demanda e ferramentas como Ahrefs e Search Console tornam isso possível sem contratar um instituto;
  • Um bom questionário nasce de perguntas que geram ganho de informação real, não perguntas que só confirmam o que você já espera ouvir.

O que é pesquisa de mercado

Uma pesquisa de mercado coleta e analisa informações sobre um determinado segmento, produto ou público para ajudar na tomada de decisão, seja de lançamento, de precificação, posicionamento ou expansão. 

Toda empresa tem uma opinião sobre o que o mercado quer e a pesquisa existe justamente para averiguar se essa opinião tem embasamento ou não. Por isso, ela deve ser feita com evidências e estrutura suficiente. Muitas vezes, a pesquisa até corrige premissas que pareciam óbvias dentro de uma empresa, mas nunca haviam sido testadas.

Tipos de pesquisa de mercado: exploratória, descritiva e causal

Existem 3 tipos prinicpais de pesquisa de mercado: exploratória, descritiva e casual. | Imagem: chatchanan366/magnific

Confundir os tipos de pesquisa de mercado é algo bastante comum, afinal, eles podem até ser parecidos, mas têm metodologias e resultados diferentes.

A pesquisa exploratória serve para entender um problema pouco conhecido, quando ainda não há hipótese clara. Usa métodos qualitativos, como entrevistas em profundidade, grupo focal, observação de comportamento e produz material suficiente para gerar hipóteses, não para confirmá-las com números.

a pesquisa descritiva serve para descrever características de um mercado ou público de forma quantificada: qual o tamanho do público-alvo, qual a frequência de determinado comportamento, qual o perfil demográfico predominante. Geralmente, usa um questionário estruturado e amostragem (a seleção de uma parte representativa do público total) para gerar números com validade estatística.

A pesquisa causal, por sua vez, vai além de descrever e busca provar relação de causa e efeito: um teste A/B de preço, por exemplo, é pesquisa causal, porque isola uma variável para medir seu efeito direto no comportamento de compra.

Além do tipo, toda pesquisa se divide entre primária (dado coletado por você, especificamente para essa pergunta) e secundária (dado que já existe, coletado por terceiros, como IBGE, relatórios setoriais, Google Trends). 

O mais indicado é começar pela secundária, porque é mais rápida e barata. Dessa forma, você só parte para a primária quando a pergunta específica do seu negócio não estiver respondida em nenhuma fonte pronta.

Duas ferramentas de análise costumam aparecer ao lado da pesquisa, ainda que não sejam pesquisa em si: a análise SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças) organiza o que a pesquisa revelou em um formato de decisão, e o benchmarking compara os dados coletados com o que concorrentes diretos e indiretos estão fazendo, ambos são etapas de interpretação, não de coleta.

– Leia também: O que é marketing contínuo

7 etapas da pesquisa de mercado

O erro mais comum em pesquisa de mercado é começar a coletar dados sem definir com clareza qual decisão esse dado vai sustentar. Por isso, indicamos esse roteiro abaixo:

  1. Definir o problema de pesquisa: Aqui não é só levantar um questionamento genérico como “queremos entender o mercado”, mas uma pergunta específica: “vale a pena lançar a versão X do produto para o segmento Y?”. Sem essa clareza, qualquer dado coletado é fraco demais para embasar decisão;
  2. Definir o público e o ICP: Antes de decidir quem entrevistar ou pesquisar, é preciso ter clareza sobre o ICP (Ideal Customer Profile), o perfil de cliente que mais se beneficia e mais gera valor para o negócio, e, dentro dele, a persona específica que a pesquisa vai representar;
  3. Escolher a metodologia: Com base no tipo de pergunta (exploratória, descritiva ou causal) e no que já existe disponível como dado secundário, decide-se: questionário, entrevista, grupo focal, análise de dados de busca, ou uma combinação;
  4. Definir a amostragem: Quantas pessoas devem responder, com qual critério de seleção, para que o resultado tenha validade estatística mínima e não vire uma opinião de cinco pessoas travestida de conclusão de mercado;
  5. Coletar os dados: Executar a metodologia escolhida, seja aplicar o questionário, conduzir as entrevistas ou extrair os dados de busca;
  6. Analisar os resultados: Cruzar respostas, identificar padrões, separar sinal de ruído e, quando aplicável, usar IA para organizar respostas abertas sem perder nuance;
  7. Transformar em relatório de decisão: O ponto final não é a planilha de dados brutos, mas um relatório que responde diretamente à pergunta definida no passo 1, com recomendação clara a partir do que foi encontrado.

Fontes gratuitas de dados confiáveis no Brasil

Fontes gratuitas e confiáveis já resolvem boa parte do trabalho inicial de pesquisa, sem precisar de orçamento definido. Entre elas, estão:

  • IBGE: é possível coletar dados demográficos, econômicos e setoriais oficiais. É útil para dimensionar mercado (quantas pessoas ou empresas existem no perfil que você quer atingir) e entender tendências macro de consumo por região;
  • SEBRAE: além de conteúdo institucional, o SEBRAE publica estudos setoriais e ferramentas de diagnóstico voltadas especificamente para pequenos negócios, incluindo dados sobre abertura, mortalidade e desempenho de empresas por segmento;
  • Google Trends: mostra a variação de interesse de busca por um termo ao longo do tempo e por região. É útil para identificar sazonalidade, comparar o interesse relativo entre dois termos ou produtos e detectar se uma demanda está crescendo ou caindo, mas não entrega volume absoluto de busca, só uma escala relativa.

Essas fontes ajudam em diferentes perguntas. O IBGE pode ajudar a dimensionar o mercado, enquanto o SEBRAE contextualiza o comportamento de pequenos negócios no seu setor, e o Google Trends mostra direção de tendência. Nenhuma delas, sozinha, substitui a pesquisa de demanda mais granular que vem a seguir.

Como usar dados de busca como pesquisa quantitativa de demanda 

O que muita gente não sabe ao começar uma pesquisa de mercado é que os dados que as pessoas já deixam ao fazer buscas no Google são, na prática, uma pesquisa de demanda pronta. Só que ninguém perguntou diretamente, foi o comportamento real de busca que respondeu.

A lógica é simples: se milhares de pessoas pesquisam mensalmente “quanto custa o produto X” ou “melhor Y para empresas pequenas”, isso já é uma demanda real, sem viés de resposta de questionário (onde a pessoa pode dizer qualquer coisa, inclusive inverdades).

A metodologia para captar esse sinal usa duas ferramentas principais:

  • Ahrefs (Keywords Explorer): Busque por um termo relacionado ao seu produto ou serviço e observe três métricas principais: o volume mostra as buscas mensais para aquele termo exato, o Keyword Difficulty (KD) mostra o quanto é competitivo ranquear organicamente para ele e o Traffic Potential, métrica que estima o tráfego total possível ao ranquear bem para aquele termo e todas as variações relacionadas a ele, não apenas a busca exata digitada. Ao navegar pelos termos relacionados que a própria ferramenta sugere, você mapeia “quanto” as pessoas buscam e “o que exatamente” elas querem saber antes de decidir, pode ser dúvidas sobre preços, comparação entre opções, ou buscas por solução para um problema específico.
  • Google Search Console: Enquanto o Ahrefs mostra a demanda de mercado como um todo, o Search Console mostra a demanda que já chega até o seu próprio site: quais termos geram impressões e cliques, em qual posição seu conteúdo aparece e qual a taxa de cliques para cada termo. Comparar essa lista com o volume de busca do Ahrefs pode ajudar a identificar termos com volume alto e demanda, para os quais seu site ainda não aparece, ou está mal posicionado.

Na prática, o passo a passo funciona assim: liste os termos-semente do seu negócio no Ahrefs, identifique os de maior Traffic Potential e menor KD (mais fáceis de conquistar), depois cruze essa lista com os termos que já geram impressão no Search Console para saber onde já existe tração parcial. O resultado é um mapa de demanda, validado por comportamento e não por opinião de quem respondeu a um formulário pensando na resposta “certa”.

Modelo de questionário: como escrever perguntas que geram informação de verdade

Quando os dados secundários e dados de buscas não respondem a pergunta específica do seu negócio, é hora de aplicar um questionário (survey) direto ao público. A principal regra é que cada pergunta precisa ter um ganho de informação, ou seja, a resposta precisa ser capaz de mudar a sua decisão. Se você já sabe qual resposta vai receber ou se as respostas não mudam os seus próximos passos, a pergunta não deveria estar no questionário.

Para validar uma demanda de um novo produto ou serviço, teste esta estrutura:

  • Perfil (filtro de ICP): perguntas que confirmam se quem está respondendo de fato representa a persona que você quer entender (cargo, porte da empresa, setor ou hábito de consumo). Sem esse filtro, você pode receber respostas de pessoas fora do seu público-alvo, que contaminam o resultado;
  • Comportamento atual: essa pergunta deve responder como a pessoa resolve hoje o problema que seu produto pretende resolver. Ela pode te mostrar a concorrência, inclusive soluções informais (planilha, processo manual) que não aparecem em nenhuma análise de mercado tradicional;
  • Intensidade da dor: o quanto esse problema realmente incomoda, numa escala ou com uma pergunta aberta sobre o que mais frustra na solução atual;
  • Reação à proposta: apresentar o conceito do produto e perguntar o quão provável a pessoa estaria de usar (evite perguntar “você compraria?” de forma direta, porque a resposta tende a ser mais otimista do que o comportamento);
  • Disposição de pagamento: perguntas de faixa de preço, evitando ancorar um valor específico antes de ouvir a expectativa da pessoa.

É interessante evitar perguntas sim/não quando uma escala ou pergunta aberta geraria mais nuance, e evitar induzir a resposta na própria formulação da pergunta (“você concorda que X é importante?” já entrega a resposta esperada). 

Métricas como NPS também podem entrar no questionário quando o objetivo é medir percepção de clientes já existentes, mas vale lembrar que NPS mede propensão a recomendar, não substitui perguntas específicas sobre comportamento de compra ou intensidade de dor.

Como usar IA para analisar respostas abertas

As perguntas abertas geram as informações mais importantes de um questionário e, consequentemente, as mais trabalhosas de analisar manualmente, principalmente quando há centenas de respostas. Uma ferramenta de IA pode ajudar, desde que seja usada com cuidado para pedir agrupamento por tema, não um resumo genérico.

O caminho mais eficaz é colocar o conjunto completo de respostas abertas (ou um lote representativo) e pedir à IA para identificar os temas recorrentes, com uma citação real de exemplo para cada tema, ao invés de pedir um resumo único do “sentimento geral”, que tende a apagar justamente as respostas fora da curva que costumam ser as mais interessantes. Vale pedir também que a IA aponte respostas contraditórias entre si, já que divergência de opinião dentro do mesmo público é, muitas vezes, um dado tão importante quanto o consenso.

E aqui vale um ponto de atenção: a IA organiza e agrupa bem, mas a leitura final, para decidir o caminho do seu negócio, ainda exige alguém que conheça o contexto por trás da pesquisa. Usar IA para substituir a leitura crítica tem o risco de terceirizar a decisão para uma média estatística. 

Como fazer pesquisa de mercado

Alguns cenários ajudam a visualizar como esses conceitos se combinam fora da teoria.

  • Pequena empresa avaliando um novo serviço: Antes de lançar uma nova linha de atendimento, uma prestadora de serviços local cruza dados do SEBRAE sobre o setor, verifica no Google Trends se o interesse pelo termo relacionado está subindo na região, e aplica um questionário curto com clientes atuais para validar disposição de pagamento, sem gastar com pesquisa contratada.
  • E-commerce decidindo se expande o catálogo: Em vez de perguntar diretamente aos clientes “você compraria produto X”, a equipe usa o Ahrefs para checar o Traffic Potential de termos relacionados ao novo produto e cruza com o Search Console para ver se o site já recebe buscas parciais sobre o tema, validando demanda antes de investir em estoque.
  • SaaS testando um novo posicionamento: Uma empresa de software aplica pesquisa causal por meio de teste A/B: duas versões de landing page, com propostas de valor diferentes, para medir qual gera mais conversão, essa é uma decisão baseada em comportamento real, não em preferência interna da equipe de marketing.

FAQ: Perguntas frequentes sobre pesquisa de mercado

É caro fazer pesquisa de mercado?

Não. Fontes secundárias gratuitas (IBGE, SEBRAE, Google Trends) e dados de busca (Ahrefs, Search Console) resolvem boa parte das perguntas iniciais sem custo de instituto de pesquisa. A pesquisa primária paga (survey robusto, entrevistas conduzidas por terceiros) faz sentido quando a pergunta específica do negócio não está respondida em nenhuma fonte pronta.

Quantas pessoas preciso entrevistar para a pesquisa ter validade?

Depende do tipo de pesquisa. Para pesquisa exploratória qualitativa, entre 8 e 12 entrevistas em profundidade já costumam revelar os padrões principais. Para pesquisa descritiva quantitativa, o número exige cálculo de amostragem baseado no tamanho da população e na margem de erro aceitável, quanto maior a população e menor a margem de erro desejada, maior a amostra necessária.

Dados de busca substituem completamente pesquisa qualitativa?

Não. Dados de busca são excelentes para medir volume e direção de demanda, mas não explicam o motivo por trás do comportamento. Entender por que alguém busca determinado termo, ou o que exatamente frustra no processo de decisão, ainda depende de entrevista, focus group ou pergunta aberta bem formulada.

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